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Rosas Vermelhas – Parte II
18 10 2009Ela direcionou o olhar para mim, como que soltando a respiração, aliviada.
Consegui vislumbrar seu rosto debaixo do capuz. Cabelo loiro, liso, arrumado numa franja que cobria quase toda a testa, e mechas mais compridas que escondiam as orelhas. Imaginei que tivesse mais cabelo dentro do capuz… Mas não paremos por aí. Lábios carnudos, vermelhos – senti um choque, um touro deve se sentir assim quando uma toalha escarlate dança diante de seus olhos. Um nariz arrebitadinho, afilado, e bochechas coradas, toda uma estrutura facial que a colocava entre os 16 e 20 anos. Tinha um rosto infantil, adorável, e sedutor ao mesmo tempo. Sua estrutura facial demonstrava juventude, enquanto seu jeito e expressão gritavam maturidade, uma que alguém de sua idade não deveria ter ainda. Por fim, os olhos cor-de-gelo, grandes, brilhantes, e tão vidrados que quase me assustavam.
– Não brinque com coisas assim… – ela voltou a se agaixar e a colher damas-da-noite, tranquila.
Não foi difícil perceber sua cegueira. Por um segundo, me perdi naqueles olhos quase brancos e, como se nunca tivesse visto algo parecido antes, imaginei como seria estar na sua pele.
Geralmente cegos são os pobres coitados das ruas. Mendigos esmolando, fedendo a mijo, encolhidos num canto qualquer da cidade. Acentuados como a escória da sociedade, essas pobres almas sem rumo se transformam em parasitas e fazem de seu emprego sair à procura de um trocado. Para onde voltam, de onde são, o que lhes aconteceu para chegarem ao estado em que estão, o que fazem quando não estão mostrando seus rostos sujos para pessoas que corriqueiramente lhe jogam uma moeda e se recusam a olhar mais a fundo… Ninguém se interessa em saber. Deficiências destroem o ser humano… Mas ela, ela era vívida, e Deuses, VIVA! Linda, viva e exalando essa aura que estava me deixando louco!
Era impressionante quanto tempo eu havia conseguido passar em sua presença sem cravar meus caninos na curva de seu pescoço. Sugar aquela veia cheia de sangue escarlate, pulsante… Mais de dez minutos, e ainda não a havia atacado, era quase como se uma força superior aos meus desejos – e acredite, meus desejos são muito persuasivos – estivesse criando uma barreira ao redor dela. Quem quer que seja que estava fazendo isso, caso existisse mesmo alguém responsável por esse milagre que não eu ou mesmo ela, seja louvado. Louvado por me dar os dez minutos mais iluminados e enfurecedores da minha pós-vida.
Afastei-me um pouco. Meu controle só ia até certo ponto, e a tentação era ela em pessoa. Não, eu não podia arriscar… Tentei manter meu interesse por ela, pela personalidade dela, em exercício.
– Não é muita gente que tem a coragem de explorar um cemitério a essa hora…
– O que devo temer?
– O silêncio, a solidão, ou pior… Ruídos e presenças. Não é isso o mais assustador em se encontrar num cemitério na calada da noite? – me diverti com o pensamento.
– Ou seja, o que você não espera encontrar? – ela finalmente se levanta, com o cesto cheio de damas-da-noite. – Vida?
Eu ri, mais à vontade:
– Sim, exatamente.
– Eu ficaria mais assustada em encontrar não-vida… – andando em direção à saída.
Fiquei surpreso com o comentário. Não consegui definir – e isso me deixou um tanto tenso – se ela estava indiretamente se referindo a mim, ou se estava simplesmente comentando inocentemente sobre algo em que acreditava ou imaginava existir… Isso me torturou por alguns segundos. Será que ela teria descoberto o que sou? Impossível. Humanos não tem esse tipo de percepção, e mesmo que tivessem, eles dificilmente chegariam a uma conclusão realista que se encaixasse à minha verdade. Não, não tinha como. Eu estava salvo… Não é?
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Rosas Vermelhas – Parte I
3 10 2009Era uma daquelas noites. A preguiça paralizava meus músculos, a negritude do céu apenas me entediava. Ociosamente, eu observava a sequência de lápides no chão, encostado a uma cripta. Mesmo a lua não se deu o gosto de aparecer, e a única coisa me mantendo acordado era a falta de cansaço por ter passado o dia inteiro dormindo. Não havia mais ninguém nas redondezas. De seres vivos, bem, só plantas, corvos e alguns gatos sem dono. Nada que atiçasse minha curiosidade…
Desde que escapei do clã senti minha determinação escorrendo para fora do corpo, como se minha estadia no mundo tivesse se esgotado afinal. Como se não adiantasse mais fazer hora. Novo como sou, minha humanidade arrancada… Suspirei. Como conseguirei aguentar viver assim? Ou quase viver assim. Movido por desejos, urgências, instinto, tomado por sensações intensas e inegáveis. O auto-controle perdido. Sem hesitação, sem piedade, sem receio. Eu apenas me jogava nas ações, nunca me perguntando como ou porquê as executava. E quando via o fim, eu via o fim.
Era uma cruel espera, a volta da sanidade, que, de um jeito ou de outro, jamais seria completa. E mesmo quando a tivesse, parcialmente, o passado me perseguiria pela eternidade. A tortura… Dizem que você se acostuma. O ser humano é capaz de se habituar a absolutamente tudo, mas eu não era mais humano. E portanto eu não seria mais capaz de me adaptar, como um humano. Não, eu me adaptaria como outra coisa. Como um animal. Como eles se adaptam. Purgando-se de todos os sentimentos, de todas as virtudes da alma, para abraçar emoções passageiras, efêmeras, que, afinal, é tudo o que tinham… Um dia eu seria como eles, se continuasse assim. Suspirei novamente, e abaixei a cabeça, esta pulsando – figurativamente – com perguntas e medo.
Não era justo! Por que?! O que eu fiz pra merecer esse destino? Esse meu rosto, meu “lindo” rosto… O odeio! Não fosse por ele, nada disso…
Ergui a cabeça novamente, num reflexo. Alguém havia chegado. Alguém cheirando a doces manhãs ao sol e muitos diferentes tipos de flores. Sim, sim, de fato! Alguém se aproximava, alí, no portão do cemitério. Levantei de imediato, novamente por reflexo, e observei a figura e seus movimentos.
Uma dama, plebéia, vestindo uma capa azul-marinho que se mesclava com a noite, e um vestido longo e delgado que seguia mais ou menos a mesma cor. Não notou minha presença, mesmo que eu estivesse destacável com minha capa vermelho-escuro, camisa branca vitoriana, calças e botas pretas. Eu não conseguia ver direito o rosto da senhorita, mas seu cheiro exalava juventude, pureza, docura… Meu sangue borbulhou – figurativamente, mais uma vez –, de novo os desejos. Impulsos e fantasias tomando conta do que outrora era uma mente coerente.
Um perfume de beleza e unicidade. Guiou-se por entre as lápides devagar, cautelosa, e com seu andar sereno e gracioso foi de encontro a uma cripta onde, à porta, cresciam damas-da-noite. Se ajoelhou diante delas e começou a colhê-las pacientemente, fazendo-o com muito ofício.
Observei aquilo, me aproximando devagar, sorrateiramente. Como um leão que se esconde na mata alta da savana para surpreender sua presa, eu tomei o silêncio como meu esconderijo e fui até ela, tão silente que parecia estar flutuando, certo de que conseguiria conquistar meu objetivo sem muita dificuldade, e calar a sede que subia pela minha garganta. Erro meu. A dama se levantou quando ainda estava a cinco metros dela e, sem olhar na minha direção, perguntou com sua voz melodiosa:
– Quem está aí?
Meu desejo cresceu. Como criatura tão bela, tão dócil, conseguiu me detectar com essa facilidade? E sua voz, o timbre angelical, mas o tom de firmeza, de força… Talvez eu não estivesse lidando com uma gazela afinal. Ainda assim o conflito permanecia. Devia respondê-la ou simplesmente avançar?
– Se há alguém aí, que por favor responda. – ela prosseguiu. – Eu mesma tenho a culpa de perturbar os mortos quando descansam… Mas esse silêncio está me assustando, sinto como se não fosse um homem, mas um corpo que fizesse espreita de minha pessoa. Uma presença incógnita, não o haveria descoberto não fosse pelo som de seus passos. Se quem estiver aí for vivo, por favor responda…
Eu ri, estridentemente, quebrando o instinto e abrindo espaço para a curiosidade:
– Então talvez eu não deva responder.
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O Festival da Lua – Parte II
11 08 2009Me virei para olhar a figura, um tanto constrangida. Era uma jovem sorridente, de cabelos alaranjados com as pontas roxas, preso. Tinha uma pele morena, era magra e bonita, tanto é que, como mulher, me senti um intimidada por seu jeito radiante, beleza e juventude. Parecia mais nova, mas aposto que tinha mais ou menos minha idade. E uma outra coisa me chamou a atenção. Olhos lilás. Astutos. Astutos demais para o resto do figurino, que inspirava vivacidade, energia, infantilidade. Admito que suspeitei da garota, no início, mas logo disfarcei com um sorriso amigável.
– Oh, é mesmo? E o que significa? – sentindo borbulhar aquela pontada de inveja que se mesclava à curiosidade de, de fato, saber a resposta.
– Oh, o usual… Atração sexual, amantes na noite roxa do Festival. – rodeava-me com uma curiosidade analítica e, ao mesmo tempo, se é que era possível, adorável. – Eles tem toda uma publicidade virada para essas flores… Existem histórias…
– Histórias? – mais interessada, deixando de lado minha vaidade feminina.
– Sim, muitas delas. Sobre pessoas que experimentaram sensações tântricas, cármicas, orgásticas na noite do Festival, mas que nunca conheceram parceiros. É um evento cheio de mistérios, esse.
– Não me parece mais que super-estimulação devido a algum tipo de afrodisíaco. Provavelmente alguém derramou drogas na água daqui. – não estava convencida, e não precisava de mais histórias bobas.
Ela riu.
– Você não é daqui, não é?
– Pelo jeito, você também não.
– Meu nome é Diana. E você é…? – olhou para mim com ainda mais curiosidade.
Seu jeito de criança não me agradava, mas apesar de sincera ou mesmo cortante, nunca fui mal-educada.
– Kilira. – me apresentei.
– Kilira, huh? Gostei de você. – ela sorriu docemente.
Não soube o que responder a isso. Resolvi mudar de assunto, voltando ao meu caminho.
– Então, o que você sabe daqui?
– Só o que me contaram. Já notei que você é uma daquelas pessoas… – ela mesma mudou de assunto. – Mas deveria desistir. Não vai encontrar razão aqui.
– Como assim aquelas pessoas?
– Você sabe, que pensam que o mundo gira em torno de uma lógica e um padrão. Aquele tipo de gente que acha que tudo pode ser explicado… Não é?
– Não encontrei uma situação em que isso não se aplicasse ainda.
Ela riu de novo. Daquele jeito doce que me era tão incômodo.
– Ainda… Bom, acho que vou me despedindo aqui. Ainda quero dar uma olhada na cidade antes do grande evento. – sorriu, e foi andando apressada pelas ruas.
Achei meu hotel, me registrei e fui me alojar no quarto. Mais tarde, uma vez que descansada, e quando o sol já ia se despedindo de seu turno, resolvi me engajar em uma outra busca por minha tão adorada lógica. Visitei uns bares e restaurantes tradicionais, e conversei com os clientes, empregados. Pessoas acostumadas a visitar o Festival e residentes. Nenhuma delas me deu uma narrativa concisa. Ou coesa… Tudo que consegui foram contos cortados e tendendo à falta de sentido, como sonhos distantes, daqueles que você acorda mas não lembra muito, ou memórias a tempos esquecidas. Mas não vou dizer que foram todas desinteressantes…
Como essa garotinha que andava com o pai, brincando num dos bancos giratórios do balcão do bar… Disse que viu um homem alto e magro, com um corpo que lembrava muito uma ampulheta, roupas listradas entre o azul e rosa, e rosto de coelho malhado, com olhos vermelhos. Esse tal homem-coelho serviria a uma princesa gótica, que estava apaixonada por uma raposa, que por si amava um cristal… Me interessou o jeito como ela contou, como se fosse um conto de fadas. Não, como se tivesse lido em algum lugar, ou até… Como se tivessem lido para ela.
Ou o rapaz de dezesseis que sentou na mesa ao lado da minha no restaurante… Sentiu a presença de dragões transparentes, rodando os céus sobre o Forte. Dragões atrozes e lânguidos, serpenteando os céus, esperando por uma oportunidade para devorar tudo e a todos… Perguntei porquê eles esperavam. Se eram tão grandes e temíveis, por que não atacavam simplesmente? “Porque nós estávamos atentos”, ele respondeu, “Eles só podem atacar quando estamos distraídos.”
Mesmo os mais idosos e sábios, não contavam nada muito diferente… Ouvi de um casal sobre borboletas amarelas e pretas, feitas de papel, que apareciam nas paredes e perseguiam aqueles que percebiam sua presença. “Achei que iam me sufocar!” exclamou o idoso, “As vi voando em direção de outros o meu redor, e cobrindo seus rostos até que não conseguissem mais respirar. Eurida e eu corremos o máximo que podíamos com nossas pernas velhas…”
Eu não sabia dizer se era só cômico ou muito perturbador. Tantas as histórias, contos, narrativas… Não é possível que todas as pessoas desse país tenha uma imaginação assim! Quanto mais ouvia a respeito, mais me confundia, mais ficava curiosa e irritada… O mistério só se afastava, desde que cheguei aqui! Tem de ter um ponto lógico, tem de ter!
Olhando as barraquinhas da rua principal já vendendo seus produtos, apenas esperando a noite chegar, fui avaliando os pontos em comum de minha descoberta. Por exemplo, todos com quem falei relatavam o céu noturno, durante o Festival, como “roxo ou lilás”. Outra coisa curiosa era o/a principesa – sim, ele/a de novo! Apesar dos relatos de sua beleza serem unânimes, quando o assunto é detalhes, o caos reina de novo. Não consegui descobrir a cor de seu cabelo, olhos OU pele. E não é como se ele/a sempre aparecesse coberto/a, que não é esse o caso. É que para cada pessoa sua aparência seguia um ritmo diferente.
“Forte, de olhos verdes.” Dizia uma jovem na rua. “Delicada, olhos castanhos” Contrariava um rapaz. E ainda “Alto, magro, cabelo azul e olhos laranja.” Um bardo qualquer refutou.
Suspirei, enquanto deixava mais uma dor de cabeça de lado. Era outro mundo, velho Bordon, definitivamente outro mundo…
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O Festival da Lua – Parte I
16 06 2009Acontecia anualmente. Não chegava a ser particularmente conhecido, pelo menos não fora da Província do Sono, mas sua fama atraía o público-alvo. Os nativos, em sua maioria. Gente das roças, fazendas, botânicos, agricultores, os camponeses – o povo comum. O Festival se fazia das mãos deles, do povo, e era direcionado para o entretenimento deles, para o povo. Como um ritual de colheita. E a aparição da Principesa, um dos pontos altos dos três dias de cerimônia, passaria despercebida não fosse sua visão uma raridade.
Era a minha primeira vez. A única coisa que me preparara para os eventos que seguiriam eram os rumores – daqueles que você ouve em boteco de estrada. Como sou de fora, o pouco que sabia do Festival serviu de chamariz. A névoa que havia sobre a ocasião me atraiu. Como diziam os velhos do meu vilarejo? “A lua ficava roxa lá no alto, e os sons saíam em cores… Tudo que não pertence era revelado, coisas que não se enxerga numa noite normal. E não minto, menina, aqueles seres de outros mundos e dimensões caminhavam no mesmo chão que nós. Pode ser que até agora caminhem, mas como nós estão alheios uns aos outros… Não se encontram no tempo e espaço, e vão viver suas vidas, ignorantes de que andam nesse mesmo chão…”
Sim, eu sei que parece exagerado. Mas não é para enlouquecer uma criança, contar uma história dessas? Crescer ouvindo isso, e imaginando se é verdade… Só criança mesmo pra dar ouvido a velho maluco! Agora quando cresci não aguentei a dúvida. Não, não foi isso. Como explicar…? Digamos que alguém diz que tem uma casa assombrada na esquina, e isso assombra suas noites… Então um dia, quando você finalmente se convence de que fantasmas não existem, você vai na tal casa apenas para descobrir que a assombração era uma toalha branca que ficou presa no lustre. Essa era minha missão, eu precisava saber se não havia uma explicação racional para as histórias do Velho Bordon. Se não por mim, então para inocentar o Velho Bordon das acusações de insanidade e caduquice! Afinal ele é um bom homem, apesar do gosto pelo fumo…
As histórias que ouvi na estrada foram ainda menos esclarecedoras. Não sei se é porque camponês gosta de contar besteira ou se é porque eles não viam as coisas de uma maneira científica, como me acostumei. Sei que a tal Principesa, tão falada, era o mistério em pessoa. Alguns se referiam à figura como uma dama, outros como a um rapaz. Soube que recebia esse nome, Principesa, exatamente porque seu sexo não podia ser definido. Influenciaria na opinião do povo, saber. Por exemplo, homens podem não gostar de ser governados por uma mulher. E não é toda mulher que aprecia homem no poder. Então a coisa toda era mantida em segredo, e de certa forma, para aquele povo, funcionava. Também ouvi de sua aparência… Fosse menino ou menina uma coisa era certa, sua beleza! Acredito que quando a conversa chegava a esse ponto, a ausência de um sexo definido para a/o líder era o que importava mais. Afinal, os rapazes poderiam apreciá-la/o sem remorsos, e o mesmo para as meninas. Mas depois de muito discutir, questionar, pesquisar e aprender, sobre o Festival em si, só consegui mais histórias sem sentido.
Perguntei a mim mesma se esse povo todo era louco, e se eu havia mesmo, como o Velho Bordon disse, entrado numa dimensão diferente uma vez que cruzei a fronteira com a Pronvíncia do Sono – que, não se enganem, é um país, o nome de um país. Um país pequeno, mas não deixa de ser um país. Bom, o caso é que depois de viajar boa parte do dia, tendo a viagem durado uma semana e pouquinho, pela vasta região rural que antecede a capital, provavelmente a única cidade considerada cidade no país inteiro, cheguei a meu tão aclamado destino.
O chamavam de Forte das Lantes, e não foi difícil descobrir o porquê. Lantes é uma espécie de lílio vermelho-sangue que nasce muito por essas bandas, uma flor linda, de perfume forte e sedutor. Dizem que seu pólem serve de ingrediente para soníferos poderosos. Contudo, nada do que me foi dito me preparou para a capital. Não eram só pequenos ramos, espalhados a esmo dentro do Forte, ou plantados nos jardins locais… As lantes haviam tomado por completo todas as paredes do lugar! O fundo cinza de pedra, mesclado ao verde das raízes e vermelho-sangue das milhares de lantes acumuladas em seus cantos, separadas umas das outras por talvez cinco ou seis centímetros… Até hoje não sei afirmar, com certeza, se era uma imagem bonita ou chocante. Curiosamente, quando finalmente fechei a boca e entrei, não senti o perfume forte e sedutor que caracterizava as lantes…
O livro deve estar errado, pensei. O cheiro deve sair quando fazem o perfume da lantes, manofaturado, e não natural – foi o que me ocorreu enquanto passava pelas ruas cheias de gente arrumando suas barraquinhas, para o evento que se iniciaria aquela noite. Ou mesmo… Talvez essas lantes não sejam de verdade, mas decoração! Até ir a uma e tocar sua pétala, para descobrir que a textura a revelava como viva.
– Então porque não sinto o cheiro? – me perguntei, incomodada demais com o mistério para notar que havia falado em voz alta, enquanto parava no meio da calçada, expressando incrível insatisfação.
– É uma metáfora. – alguém respondeu, me surpreendendo.
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Sobre Deus
7 07 2008Prefiro escrever uma história boa – que valha a pena ser lida – aos poucos, que um conto medíocre às pressas.
Algumas pessoas pensam que escrever é fácil… Crêem que é só pegar uma caneta, papel e deixar rolar… Não é assim… Escrever uma história é brincar de Deus.
Um personagem não é criado, ele nasce. Ele nasce de alguém, é gerado e segue um curso que antecipa ao da história a ser lida, uma vida que vai formar o que ele é hoje, sua personalidade. Chegado o momento desse personagem seguir seu propósito é que o trabalho se inicia de verdade. É preciso um tempo, espaço, dimensão. O personagem sozinho não faz a história. Tudo influencia.
Quantos anos ele tem? Em que época vive? Onde nasceu? Ainda mora lá? Que tipo de vida teve? Seus pais estão vivos? Quem ele ama? Em que acredita? Quem são seus amigos? Ele tem amigos? Em que trabalha? Ele trabalha? Qual seu propósito? Pelo que morreria? Pelo que vive? Perguntas demais para formar apenas uma personalidade. Contudo, a relevância é absoluta. Mesmo que o leitor nunca chegue a saber de tudo, o escritor precisa estar a par do que criou.
A partir do momento que o personagem se encaixa no mundo, ele ganha vida própria, e está nas mãos do escritor acompanhá-lo de perto, afim de impedir que ele saia do rumo desejado. Sendo muitas as vezes que o personagem sai mesmo do caminho para ele traçado, ele segue as próprias vontades e crenças, vai atrás do que ele procura, desconhecendo a intenção do escritor – Deus – de direcioná-lo para um outro lugar.
É tudo muito complexo. É um universo a ser pensado, planejado e constantemente observado.
Em exclusão aos fatos, o emocional também ocupa uma parcela importante no desenvolvimento de um conto. O que ele sente? Como o sente? Por que o sente? Qual a origem desse sentimento? Amor, ódio, ansiedade, desejo, sentimentos e sensações seguindo seu curso, achando seu lugar no coração do personagem. Para torná-lo humano, para que ele seja compreendido por aqueles que lêem sua história.
Ele tem um passado, um presente e um futuro… Existem horas em que posso interferir, assistí-lo, ajudá-lo, mas existem horas em que simplesmente não tenho poder algum sobre minha criação. Não parece, mas é assim.
Por isso eu prefiro levar com calma… Não estou escrevendo uma simples história, ou descrevendo um conto qualquer aqui, estou acompanhando parte da vida de um homem… Assim sendo, exijo paciência de mim mesma, e peço o mesmo dos leitores. Eu sou Deus, mas dependo do humano que nasceu de mim.
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Ilegalidades Pokemônicas
6 06 2008Crédito de *SilentReaper, do DeviantArt.
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IndiviDualidade
5 05 2008Caro (Insira Nome Aqui),
Vou começar atestando um fato. Tenho uma amiga. Tenho uma amiga com concepções e princípios primariamente diferentes dos meus. Essa minha amiga, vamos chamá-la de Vanessa, é loucamente apaixonada pelo mesmo rapaz a anos. Sempre ela esteve ao lado desse rapaz, apoiando-o, guardando seus segredos, consolando sua mágoas, apenas para receber reconhecimento algum. Nunca ocorreu a Vanessa expressar seu amor, livrar-se do fardo que é estar presa a um sentimento, isso porque ela está a par da reação do rapaz à notícia. Ele a deixaria, a rejeitaria e deixaria seu lado, talvez por medo de se envolver, talvez por medo de machucá-la mais, talvez para não voltar mais, seja qual for o motivo ou a duração da separação, eles se afastariam. E para Vanessa, isso seria mais doloroso que passar uma vida em silente sofrimento.
Veja bem, (Insira Nome Aqui), eu não entendia essa minha amiga, como e porque ela agia de tal jeito. Não fazia sentido pra mim. Eu jamais faria o que ela faz, por isso. Eu sou diferente dela. Eu jamais deixaria de verbalizar um sentimento, eu jamais apoiaria um homem cegamente, sem me utilizar de seus segredos para conquistá-lo, e eu nunca me deixaria ser consumida por uma coisa trivial como paixão, em silêncio. Não, eu não sou esse tipo de mulher. Eu não sou uma Vanessa. Eu sou uma Marin, eu me declararia, seria rejeitada talvez, mas mas no final levantaria a cabeça, criticaria a má-decisão de pra quem eu tivesse me declarado, e me afastaria, para ir atrás de uma outra conquista. Contudo, no último ano, eu fui uma Vanessa. Eu me apaixonei, e agi como uma Vanessa. Não sei se você compreende, (Insira Nome Aqui), mas para uma mulher orgulhosa como eu, ser uma Vanessa é… Ultrajante.
Tenho muito orgulho de ser uma Marin. Muito orgulho da minha individualidade, sem que o sufixo “dualidade” se destaque concedendo um duplo sentido. Gosto das características que me fazem única. Acredito ter uma auto-estima saudável graças a isso. E por isso, (Insira Nome Aqui), que estou lhe direcionando esta carta. Eu escolhi você, dentre muitos outros, porque lhe considero digno de meu respeito, de minha admiração e de meu afeto. Mas jamais do meu amor. Pode parecer cruel, mas meu amor próprio não deve ser inferior ao meu amor pelos outros. Isso não faz de mim uma pessoa egoísta, eu sacrificaria tudo o que possível para ajudar um amigo em necessidade, daria minha vida por um membro da família, estaria disposta a dedicar meu tempo ao progresso da sociedade, contudo, quando referente a um amante, a um amado, a um namorado, eu simplesmente não posso arriscar minha individualidade.
Cansei de ser dualista, (Insira Nome Aqui), vou ser eu mesma, e agir do modo que se encaixa mais comigo. Sim, eu amo você, (Insira Nome Aqui). Mas não, eu não preciso de sua presença ao meu lado para ser feliz. Então adeus, (Insira Nome Aqui). Que esta não seja a última vez que nos comunicamos, mas que seja a primeira vez que nos vemos como indivíduos. E espero, sinceramente, que você seja feliz com quem escolher para si. Quanto a mim? Eu sobreviverei, eu sempre sobrevivo. E tenho esperanças que, no final, eu também encontre alguém para mim.
Sinceramente,
Marin
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Blue Seed
4 04 2008- A Lentidão -
O sol, piedoso aquela manhã, batia na árvore em cujo galho sentara-se mais cedo – e onde permanece até então, em tranquila meditação -, deixando leves feixos de luz iluminarem seu rosto escuro. Fazia três dias já que se alojava naquela exata árvore, sempre no mesmo galho grosso e resistente. O motivo? Não seria o mesmo sempre? Aquela louca por quem se apaixonara… Quer dizer, a garota a quem deveria dedicar a vida, independente de deseja-lo ou não.
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